Entre o desgaste da CBF, o pior desempenho do Brasil nas Eliminatórias, episódios de violência, racismo, escândalos e a invasão das bets, a Copa do Mundo já não mobiliza o país como antes
Durante décadas, a Copa do Mundo foi quase uma religião civil no Brasil. Antes mesmo da bola rolar, ruas inteiras já estavam pintadas, bandeirolas tomavam conta dos bairros, camisas amarelas apareciam nas janelas e crianças sabiam de cor a escalação da Seleção. Em 2026, o cenário parece outro: o país continua apaixonado por futebol, mas a magia da Copa perdeu força — e o brasileiro, hoje, parece acompanhar com mais atenção a composição e os embates do Supremo Tribunal Federal do que os nomes que vão vestir a amarelinha.
Essa mudança não nasceu do nada. Ela é resultado de um acúmulo de frustrações, ruídos e crises que enfraqueceram a conexão emocional entre povo e Seleção. O Brasil se classificou para a Copa de 2026, mas encerrou as Eliminatórias Sul-Americanas com sua pior campanha da história, enquanto a equipe ainda chegou à reta final de preparação convivendo com desfalques por lesão às vésperas da convocação para amistosos decisivos.
O torcedor sente isso. Falta encantamento, sobra instabilidade. A impressão de um elenco pouco entrosado, sem identidade duradoura e ainda distante de reconquistar a confiança popular, ajuda a explicar por que a Seleção já não ocupa sozinha o centro das conversas nacionais. Ao mesmo tempo, a política judicializada colocou o STF no coração do debate público, especialmente em um ambiente pré-eleitoral e de forte polarização, em que decisões da Corte seguem influenciando o humor político do país.
Mas o desinteresse pela Copa não se resume ao desempenho em campo. O futebol brasileiro também passou a conviver, de forma cada vez mais visível, com temas que desgastam sua imagem diante da sociedade. A violência nos estádios e dentro de campo voltou a chocar o país neste início de 2026. A final do Campeonato Mineiro entre Cruzeiro e Atlético-MG terminou com 23 expulsões, recorde no futebol brasileiro, em mais um retrato de um ambiente que, para muitos torcedores, se afasta da festa e se aproxima do caos.
O racismo é outra ferida aberta. Apesar de campanhas institucionais e discursos de combate à discriminação, os episódios continuam se repetindo e reforçam a sensação de que o futebol ainda convive com práticas que afastam famílias, jovens e parte do público que antes via no esporte um espaço de celebração e pertencimento.
Há ainda o desgaste institucional. A CBF, entidade máxima do futebol brasileiro, carrega uma sequência de crises de imagem, denúncias e sucessivos episódios que ajudam a corroer a confiança do torcedor na gestão do esporte nacional.
E existe um novo elemento que mexe diretamente com a percepção popular do futebol: a dependência financeira dos clubes e do ecossistema esportivo em relação às casas de apostas. As bets passaram a dominar parte relevante dos grandes patrocínios do futebol brasileiro, ocupando espaços centrais em camisas, placas, transmissões e campanhas publicitárias. Nesse ambiente, cresce a sensação de que clubes, atletas e campeonatos passaram a orbitar em torno de uma lógica comercial que muitas vezes fala mais alto que a paixão.
Não é apenas uma discussão econômica; é simbólica. Quando o torcedor vê o futebol cercado por suspeitas, escândalos, violência, discriminação e pela onipresença das bets, a Copa deixa de ser apenas sonho e vira produto. E produto demais, no Brasil, costuma perder alma.
O resultado aparece no cotidiano. Menos bandeirinhas nas ruas, menos conversas espontâneas sobre a Seleção, menos ansiedade coletiva. O futebol continua gigante, mas a Copa já não mobiliza automaticamente como antes. O problema talvez não seja a perda do amor nacional pelo jogo — isso o brasileiro ainda tem. O problema é que a Seleção, a CBF e o próprio ambiente do futebol parecem ter feito muito para esfriar esse romance.
Em ano de Copa, o Brasil ainda para para ver a bola rolar. Mas já não para do mesmo jeito. E isso diz menos sobre o torcedor do que sobre o futebol que lhe foi entregue.


