Visão de negócio é o novo DNA do profissional com habilidades no chão de fábrica digital
Em entrevista, Gustavo Vieira, diretor global de TI da CMPC, analisa a transição do analógico para o digital e destaca que o futuro do profissional técnico reside na visão de negócio, no domínio de dados e na segurança cibernética.
A imagem das plantas industriais dos anos 90, operadas por dezenas de pessoas em processos manuais e analógicos, ficou definitivamente no passado. Hoje, a tecnologia deixou de ser uma ferramenta de suporte para se tornar o "backbone" (espinha dorsal) da eficiência produtiva. Essa metamorfose não altera apenas o maquinário, mas exige uma evolução profunda nas habilidades e atribuições dos técnicos industriais em todas as modalidades.
Em conversa recente, Gustavo Vieira, diretor global de TI da CMPC com mais de 20 anos de experiência no setor, traçou um panorama de como a inovação está moldando o novo perfil profissional. Para Vieira, o avanço tecnológico é um caminho irreversível, comparando a proteção digital de uma empresa à segurança de um carro de Fórmula 1: quanto mais robusta ela for, mais rápido e eficiente o sistema poderá operar.
Do chão de fábrica à gestão de dados
Uma das mudanças mais drásticas apontadas por Vieira é a consolidação da Indústria 4.0. Se antes eram necessárias dezenas de colaboradores para controlar uma planta, hoje o controle é centralizado por sistemas computacionais complexos. Para o técnico industrial, isso significa que o esforço físico dá lugar à capacidade analítica.
A integração de dados do chão de fábrica com informações de planejamento e finanças é o principal motor de produtividade atual. Nesse cenário, as atribuições do técnico evoluem:
- De executor a analista: O profissional deixa de apenas reparar máquinas para garantir a integridade dos dados gerados por elas.
- Tomada de decisão: Auxílio estratégico em tempo real baseado em indicadores digitais.
- Eficiência operacional: Foco total na redução de custos de manutenção e aumento da vida útil dos equipamentos através do monitoramento constante.
Inteligência artificial e o desafio cultural
A ascensão da Inteligência Artificial (IA) no ambiente fabril gera questionamentos sobre a substituição de postos de trabalho. Contudo, Vieira defende que a IA não eliminará as funções, mas transformará a forma como os negócios são conduzidos, substituindo tarefas repetitivas por funções que exigem mais intelecto e curiosidade.
"A IA facilita o acesso à informação, mas cabe ao profissional cultivar a curiosidade para usar essa ferramenta no dia a dia", destaca o executivo.
O desafio não é apenas técnico, mas cultural. Ensinar operadores e técnicos a utilizarem algoritmos de IA e novas interfaces digitais requer uma abertura para o aprendizado contínuo (lifelong learning).
Sustentabilidade e segurança: Pilares inegociáveis
O futuro da técnica industrial também está intrinsecamente ligado à sustentabilidade. A tecnologia agora é utilizada para monitorar recursos naturais e otimizar a produção para reduzir o impacto ambiental. O técnico do futuro precisará entender como sua atuação direta na máquina reflete nos indicadores ESG (Ambiental, Social e Governança) da companhia.
Paralelamente, a segurança cibernética emergiu como um pilar tão crítico quanto o uso de EPIs. Em uma indústria conectada, o profissional técnico deve estar atento à proteção de dados e acessos, compreendendo que uma falha digital pode paralisar uma linha de produção inteira.
O Técnico como líder de negócio
A principal mensagem para os profissionais da área é a necessidade de desenvolver uma visão de negócio. O técnico que compreende os objetivos da empresa e como sua função gera valor ganha relevância e novas oportunidades de carreira.
Em suma, a transformação digital exige um técnico industrial multidisciplinar: um operador especializado, um analista de dados atento e um agente consciente da segurança e sustentabilidade. O futuro chegou, e ele é digital, integrado e movido pelo conhecimento.

