O mito do 'apagão de talentos' e a desvalorização do técnico industrial

O elo perdido da reindustrialização: 

Enquanto o debate nacional foca na fuga de cérebros da alta academia, o mercado brasileiro precariza salários e negligencia os profissionais técnicos que, na prática, sustentam a inovação no chão de fábrica.

Por Emerson Tormann

A recente análise do economista Carlos Paiva no programa Horta da Verdade (TV247) tocou em uma ferida aberta da Nova Indústria Brasil: a obsessão nacional por financiar pesquisas em tecnologias de fronteira que o nosso parque industrial, ainda defasado, não tem capacidade de absorver. Ao defender a "extensão industrial" — a aplicação de soluções práticas para elevar a produtividade do parque produtivo existente —, Paiva acerta no diagnóstico. Contudo, a discussão deixou à margem o ator principal dessa engrenagem: o profissional técnico.

Entrevista do economista Carlos Paiva ao programa Horta da Verdade (TV247).

Não haverá reindustrialização robusta sem um programa de governo seriamente voltado à formação e, sobretudo, à valorização da educação técnica profissional. Hoje, falta no Brasil um entendimento claro sobre a importância estratégica das profissões regulamentadas de nível técnico. Os técnicos industriais — atuantes em modalidades complexas como Eletrotécnica, Eletrônica, Mecânica, Automação, entre outras, e devidamente registrados no Sistema CFT/CRT — são os verdadeiros executores da extensão industrial. São eles que traduzem a engenharia teórica em soluções viáveis para o chão de fábrica, garantindo a manutenção, a segurança dos sistemas e a continuidade operacional.

Para preencher a lacuna apontada na entrevista e frear a dependência externa, o Estado brasileiro precisa agir em duas frentes. A primeira é a formulação de campanhas governamentais massivas para mudar a percepção da sociedade sobre o ensino técnico. É preciso mostrar aos jovens que o futuro não reside apenas em diplomas universitários muitas vezes descolados da demanda real, mas nas oportunidades sólidas de carreiras forjadas no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e na rede de Institutos Federais (IFs). Esses polos formam profissionais prontos para modernizar a matriz produtiva nacional com rigor técnico e normativo.

A segunda frente exige olhar para fora e aprender com quem faz certo. A Alemanha sustenta seu alto rendimento industrial e liderança tecnológica global ancorada em um modelo dual de educação, onde a formação técnica não é um "prêmio de consolação", mas uma escolha de primeira linha, acompanhada de forte valorização salarial e respeito social. O técnico alemão é visto como pilar da indústria; no Brasil, ainda lutamos contra o subemprego.

Isso nos leva a um ponto determinante que precisa ser desmascarado: é mentira que falte mão de obra qualificada no Brasil. A narrativa do "apagão de profissionais", exaustivamente repetida por entidades patronais, é uma cortina de fumaça. O que existe é um descompasso brutal e intencional entre o que o mercado quer pagar e o nível de conhecimento técnico, responsabilidade legal (como a emissão de TRTs) e experiência que o profissional carrega.

Boa parte do empresariado nacional insiste em precarizar atividades técnicas de alto nível. Exigem-se profissionais multidisciplinares, capazes de diagnosticar falhas sistêmicas e propor inovações, mas oferece-se uma remuneração de subsistência. O objetivo não é suprir uma vaga com o melhor talento, mas explorar o trabalhador ao máximo para inflar margens de lucro. Enquanto a qualificação técnica for tratada como custo a ser cortado e não como investimento estratégico, as engrenagens da Nova Indústria Brasil continuarão girando em falso.

Emerson Tormann

Técnico Industrial em Elétrica e Eletrônica, especializado em Tecnologia da Informação e Comunicação. Atualmente, é Editor-Chefe na Atualidade Política Comunicação e Marketing Digital Ltda. Possui ampla experiência como jornalista e diagramador, com registro profissional DRT 10580/DF. https://etormann.tk | https://atualidadepolitica.com.br

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