quinta-feira, 21 de abril de 2016

Fora da bolha de vidro
Emerson F. Tormann18:37


Membros da bizarra seita Weatherfield viviam uma vida muito reclusa na Casa Santa Hilda. Todos, à exceção do líder, eram proibidos de fazer qualquer contato com o mundo exterior e eram ensinados que a realidade era o mundo retratado nas telenovelas — os únicos programas de televisão aos quais tinham a permissão de assistir. Para os weatherfildianos, como eles eram conhecidos, A Regra do jogo, Avenida Brasil, Amor à Vida e Paraisópolis* não eram obras de ficção, mas documentários que mostravam a realidade. E como a maioria dos membros era nascida na comunidade, não era difícil manter a mentira.

Um dia, porém, o discípulo Kenneth, que sempre tinha sido um pouco rebelde, decidiu deixar a comunidade e visitar os lugares que tinha visto tantas vezes nas caixas altares. Claro que isso era terminantemente proibido. Mas Kenneth conseguiu escapar.

O que ele encontrou o deixou pasmo. O maior choque ocorreu quando conseguiu chegar à Paraisópolis e descobriu que ela nem ficava em Weatherfield, mas era um cenário nos estúdios Projac. 

Mas quando ele voltou escondido para casa e contou aos outros discípulos o que tinha descoberto, foi considerado um lunático.

– Você nunca deveria ter partido — disseram a ele. — Não é seguro lá fora. Sua mente prega peças em você! 

Depois disso, eles o expulsaram da comunidade e o proibiram de voltar. 

Fonte: A alegoria da caverna em A República, de Platão (360 a.C.) 
*Novelas populares no Brasil. 

A história dos weatherfildianos é sem dúvida uma alegoria. Mas o que representam seus vários elementos? 

Há muitas maneiras de traduzir a parábola. Alguns afirmam que o mundo da experiência comum é uma ilusão, e que as portas para o mundo real são abertas por drogas ou práticas sagradas de meditação. As pessoas que afirmam terem visto a verdade dessa maneira normalmente são consideradas drogadas ou malucas; mas elas acham que nós somos os tolos, aprisionados como estamos no mundo limitado das experiências dos sentidos. 

De forma mais prosaica, os weatherfieldianos da vida real são aqueles que não questionam aquilo que dizem a eles, e simplesmente aceitam como realidade tudo o que a vida lhes apresenta. Podem não acreditar literalmente que as novelas são verdade, mas aceitam sem criticar a sabedoria recebida. O que isso é exatamente depende de corno eles foram socializados. Então, por exemplo, algumas pessoas acham loucura acreditar que o presidente dos Estados Unidos pode ser culpado de terrorismo, Outros acreditam que é uma loucura igual afirmar que, na verdade, ele e um cara muito inteligente. 

Isso levanta a questão de qual é a contrapartida do mundo para a Casa Santa Hilda. Geralmente, nós não nos isolamos com tijolos e argamassa, mas confinamos os limites de nossas experiências de maneiras bem mais sutis. Se em toda a sua vida você leu apenas um jornal, está limitando radicalmente o espaço intelectual em que habita. Se só discute política com pessoas que compartilhem de suas opiniões gerais, está erguendo outra cerca metafórica ao redor de seu próprio mundinho. Se você nunca tentou ver o mundo sob outro ponto de vista, está se recusando a olhar além dos muros do mundinho confortável que construiu para si mesmo. 

Talvez a maior dificuldade que encaremos nesse aspecto é identificar o Kenneth entre nós. Como diferenciar os tolos iludidos que têm visões de mundo loucas dos que realmente descobriram uma dimensão oculta da vida que nos passou despercebida? Não podemos dar o beneficio da dúvida a todos os que acreditam ter descoberto verdades escondidas, eles não podem estar todos certos. Mas se os rejeitarmos muito rapidamente, corremos o risco de ser como os tolos e ingênuos weatherfieldianos, condenados a aceitar uma vida de ilusão em vez de uma vida de realidade.

- Trecho do livro "O PORCO FILÓSOFO" de Julian Baginni -

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Torre de TV - Brasília / DF
Sobre o blogueiro Emerson F. Tormann Possuo conhecimentos avançados em engenharia de redes de computadores e infra estrutura de servidores (o famoso CPD). Cabeamento estruturado: lógica, elétrica estabilizada (nobreak/gerador) e telefonia (centrais telefônicas). CFTV e sistemas de monitoramento e inspeção remotos. Facebook e Twitter